Ruptura e Reconexão: Reflexões sobre uma visita a Cape Coast e Elmina
Ruptura e reconexão: reflexões sobre uma visita a Cape Coast e Elmina
Julia O’Connell Davidson

Em 2023, os Castelos de Cape Coast e Elmina receberam, respectivamente, 101.134 e 78.870 visitantes. Talvez alguns desses visitantes considerem os castelos apenas locais de interesse histórico abstrato ou geral. Para muitos, porém, esses lugares possuem um profundo significado emocional, espiritual e/ou político. Em particular, visitantes da diáspora africana, descendentes de pessoas sequestradas e submetidas à escravidão nas Américas, frequentemente compartilham as motivações e os sentimentos expressos por Saidiya Hartman em seu célebre livro de 2001, *Lose Your Mother*, no qual ela relata sua própria jornada por uma rota do tráfico de pessoas escravizadas em Gana, incluindo visitas aos castelos. “Sou descendente dos cativos. Sou o vestígio dos mortos”, escreveu ela, explicando que havia viajado para Gana em busca dos “vestígios daqueles que desapareceram”, porque “queria trazer o passado para mais perto”. Os castelos são uma manifestação material da ruptura violenta na história familiar de muitos visitantes da diáspora africana, uma ruptura que os separou definitivamente de seus parentes. Também materializam o passado que deu origem a um presente no qual as vidas negras continuam sendo diminuídas e desvalorizadas.
Reduzindo o vazio entre o passado e o presente
Durante as visitas guiadas aos Castelos de Cape Coast e Elmina, os guias conduzem os visitantes às masmorras escuras e sem ventilação, onde milhares de mulheres, homens e crianças eram amontoados, às vezes durante meses, antes de serem transportados à força pelo Oceano Atlântico até as Américas, onde seriam vendidos como escravizados. Nesses espaços, o tormento físico e mental sofrido pelos cativos torna-se palpável. Além disso, na tentativa de transmitir o horror incessante vivenciado pelas vítimas do tráfico de pessoas escravizadas, os guias explicam aos visitantes que pesquisas arqueológicas revelaram que o piso das masmorras ainda contém resíduos das fezes das pessoas ali encarceradas. Diversas publicações em blogs de visitantes da diáspora africana demonstram o impacto dessa informação. Por exemplo:
“Os prisioneiros eram tratados como carga, empilhados uns sobre os outros e obrigados a viver em meio às próprias fezes, urina, vômito e restos de comida.”
“Estávamos literalmente pisando nas fezes, no vômito, no sangue, na carne, na urina e nos ossos daqueles indivíduos corajosos que haviam sido capturados e aprisionados neste castelo.”

O corpo humano nunca é apenas um corpo biológico: é sempre também um espaço de expressão cultural e de afirmação da identidade pessoal. Submeter pessoas a condições como essas não significa apenas fazê-las sofrer fisicamente de maneira extrema, mas também desumanizá-las, retirar-lhes a dignidade e separá-las de sua cultura. Para muitos visitantes, a ideia de pisar nas fezes de seus ancestrais cativos provoca uma conexão empática visceral com sua humanidade e seu sofrimento. Essa experiência, juntamente com a realização de oferendas e a deposição de coroas de flores, faz parte de um processo frequentemente compreendido pelos visitantes da diáspora como uma forma de catarse, reconexão ou cura — uma maneira de reduzir o vazio entre o passado e o presente.
Separando os vivos

Nos arredores dos castelos vive uma comunidade local, cujos integrantes incluem descendentes de pessoas que um dia foram mantidas cativas nas masmorras. Essas pessoas vivem imediatamente ao lado dos castelos, em moradias improvisadas e sem infraestrutura básica, incluindo rede de esgoto, água potável e coleta municipal de lixo. As duras condições de vida e de trabalho enfrentadas pelos integrantes dessas comunidades, assim como sua marginalização nacional e global, também têm raízes na longa e violenta história da escravidão e da colonização. No entanto, enquanto as visitas guiadas aos castelos de Elmina e Cape Coast incentivam ativamente e facilitam conexões emocionais e espirituais com os mortos, elas não procuram promover, da mesma forma, a compreensão e a solidariedade entre os vivos. Na verdade, os desafios enfrentados diariamente pelos integrantes dessas comunidades permanecem, em grande medida, invisíveis aos turistas, e são feitos esforços para que continuem assim.

Os turistas que visitam o Castelo de Cape Coast geralmente se hospedam em hotéis situados a certa distância do centro da cidade e são levados até o castelo de ônibus. Os operadores turísticos costumam organizar a chegada dos veículos por uma estrada bem pavimentada e arborizada que contorna a cidade, em vez de atravessar suas vias empoeiradas, esburacadas e cobertas de lixo. Como estávamos entrevistando integrantes da comunidade local, caminhamos pela cidade até chegar ao castelo. Durante o percurso, vimos algumas crianças defecando em valas nas margens da área de moradias precárias situada no entorno do castelo. Outras crianças brincavam ao lado das valas utilizadas para esse fim.
Fomos convidados a entrar na casa de uma das pessoas entrevistadas. Construída com pedra e madeira, a residência tinha um antigo telhado de chapas metálicas onduladas e era apenas grande o suficiente para acomodar uma cama, um fogão, uma cômoda e uma cadeira. Não havia banheiro. Essa comunidade não dispõe de rede de esgoto nem de banheiros públicos. As pessoas precisam satisfazer suas necessidades fisiológicas como e onde conseguem.
Ainda assim, em 2023, autoridades manifestaram indignação com a prática da chamada “defecação a céu aberto” na estrutura rochosa de proteção costeira, no lado leste do Castelo de Cape Coast. Um porta-voz afirmou que essa prática ameaçava o turismo e a “santidade do magnífico edifício histórico”, acrescentando que “os responsáveis não serão poupados quando forem flagrados”. Preocupações semelhantes já haviam sido expressas anteriormente em relação às práticas da população local nos arredores do Castelo de Elmina.

Os visitantes dos castelos não apenas são, em grande parte, protegidos de presenciar essas cenas, como também contam com uma infraestrutura turística que garante que não precisem se preocupar em atender às próprias necessidades fisiológicas. Foram instalados banheiros nos castelos para assegurar seu conforto e sua dignidade. As placas colocadas do lado de fora deixam claro que essas instalações são destinadas exclusivamente aos visitantes. Considerando que a taxa de entrada para cidadãos ganeses equivale ao salário mínimo diário, dificilmente a população local poderia utilizar essas instalações em vez dos terrenos abertos adjacentes aos castelos ou das valas existentes na área onde vive.
De fato, a taxa de entrada contribui para excluir a maioria dos moradores locais do acesso ao interior do “magnífico edifício histórico”, à sombra do qual vivem.

Reconectando-se através do espaço e do tempo
É evidente que não existe comparação direta entre os desafios enfrentados atualmente pelas pessoas que vivem nas comunidades adjacentes aos castelos e a tortura, a agonia física e a desumanização sofridas por aqueles que foram mantidos cativos nas masmorras dos castelos de Elmina e Cape Coast. Ainda assim, a vida dos integrantes dessas comunidades é profundamente afetada, de diversas maneiras, por forças estruturais e desigualdades desencadeadas pela história da escravidão transatlântica. Eles também vivem “na esteira da escravidão”.
As pessoas da comunidade com quem conversamos compreendiam bem a importância dos castelos para os visitantes da diáspora e demonstravam empatia por sua busca de aproximar o passado do presente e estabelecer algum tipo de conexão ancestral.
Várias delas também relataram ter conhecido turistas da diáspora que demonstravam a mesma empatia em relação à situação da população local. Alguns desses turistas chegaram a manifestar solidariedade por meio de apoio econômico aos moradores e aos negócios locais.
De modo geral, porém, os visitantes internacionais de Gana, incluindo aqueles pertencentes à diáspora africana, têm muito mais conhecimento sobre como os efeitos persistentes da escravidão se manifestam e são vivenciados nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e em outros países europeus do que sobre a maneira como esses efeitos se manifestam e o que significam para comunidades como as que vivem em Cape Coast e Elmina. A organização atual do turismo patrimonial nesses locais não contribui para corrigir essa assimetria.
Esperamos que nosso projeto ajude a iniciar um diálogo sobre como curadores de museus e de locais de patrimônio histórico podem contribuir para transformar essa realidade.