Escravidão e seus Legados
é um projeto de pesquisa financiado pelo AHRC que reúne uma equipe diversa de curadores, cineastas, antropólogos, sociólogos e historiadores de Gana, Brasil, Dominica e Grã-Bretanha para explorar criativamente como as histórias da escravidão atlântica são lembradas, mobilizadas e contestadas entre comunidades impactadas por seus legados.
Pesquisas sobre o desenvolvimento e a natureza da escravidão atlântica revelam múltiplas injustiças e experiências ao redor do mundo. Essas experiências têm significados diferentes em diferentes contextos e entre diferentes comunidades, especialmente aquelas comunidades negativamente impactadas pelo sistema. Em meio a tal divergência, as histórias da escravidão atlântica tornam-se um nexo de disputas sobre as melhores formas de comemorar esses passados. É nesse espaço generativo de contestação e de produção diversa de sentidos que atua o projeto Escravidão e seus Legados.
In the run up
No período que antecedeu o bicentenário da abolição britânica do tráfico de escravos, em 2007, havia muitas pessoas na Europa e nos Estados Unidos que presumiam a existência de um “nós” que concordava sobre os principais males da escravização e sobre as formas apropriadas de representá-la em museus, sítios de memória e outros espaços públicos, bem como sobre quem deveria fazê-lo. Hoje, tais pressupostos são publicamente contestados de múltiplas maneiras. Movimentos de protesto, de Rhodes Must Fall a Black Lives Matter e à Repair Campaign, trouxeram para o centro do debate o papel fundamental da escravidão racial no desenvolvimento da ordem social e política moderna na Europa e nos Estados Unidos, bem como seus legados contínuos sobre as comunidades impactadas. Isso tem provocado questionamentos sobre as formas pelas quais o passado da escravidão e do antiescravismo, assim como as vidas posteriores da escravidão, são — ou não são — publicamente narrados, visualizados e memorializados.
Mudanças recentes no trabalho museológico
têm visto a centralização da autoridade do público e da prática participativa, levando à criação de conteúdos conduzidos pelas comunidades de público. No entanto, as vozes daqueles no Sul Global que vivenciam os legados vivos da escravização têm estado amplamente ausentes das conversas que impulsionaram tais mudanças. As narrativas da escravidão transatlântica não são fixas nem estabilizadas em um passado definido e singular, mas são contestadas tanto entre quanto dentro daqueles que — no presente — são posicionados de formas diferentes pelo passado da escravidão e que imaginam futuros distintos. Como Stuart Hall afirmou certa vez, tudo o que é histórico está “sujeito ao contínuo ‘jogo’ da história, da cultura e do poder” (Hall, 1990: 225).
Evidentemente, o reconhecimento da escravidão como “um passado que não passou” (Trouillot, 1995) tornou-se uma preocupação popular para muitas instituições culturais. Hoje, curadores de museus perguntam como museus e outros lugares de memória podem iluminar, reparar ou compensar a ferida que nasceu com a modernidade capitalista (Cardonna, 2021). Reconhecendo o entrelaçamento inevitável entre passado, presente e futuro, estudiosos também começaram a perguntar: O que desejamos do passado? O que esperamos recuperar? (Connolly e Fuentes, 2016: 115) e qual é a história da escravidão que “devemos contar a partir do presente que nós mesmos habitamos?” (Best e Hartman, 2005: 5).
Nossa missão é
incluir e amplificar vozes e perspectivas menos ouvidas do Sul e do Norte por meio da pesquisa, concepção e avaliação de novas formas de curar a cultura material e os lugares de memória associados à escravidão atlântica. Fundamentalmente, nossa abordagem busca uma prática decolonial, ao mesmo tempo em que se apoia nos ideais inclusivos de convocação de equipes do modelo de pesquisa Thrive.
Escravidão e seus Legados anima e complexifica as questões acima ao atentar para a diversidade dentro de e entre quatro países — Gana, Brasil, Dominica e Grã-Bretanha — e entre regiões, comunidades ou locais específicos dentro deles. Embora ganenses, brasileiros, dominicanos e pessoas afrodiaspóricas na Grã-Bretanha possam cada qual habitar “no rastro” da escravidão (Sharpe, 2016), estamos interessados nas particularidades dessas histórias, em como essas “vidas posteriores” (Hartman, 2001) da escravização são compreendidas e em como, guiado por essa diversidade, o passado da escravidão pode ser reimaginado e representado.
Em Gana, Brasil, Dominica e Grã-Bretanha, a equipe investigará a relação entre histórias divergentes e vidas posteriores da escravidão, bem como as lutas sociais e políticas em torno das memórias e narrativas da escravidão que continuamente desestabilizam ou retornam a esse passado instável/desestabilizador. O projeto atenta para a importância do gênero na formação das histórias da escravização e das representações contemporâneas do passado. Também nos voltamos para histórias de marronage ou aquilombamento, que oferecem lentes divergentes sobre o entrelaçamento de passados, presentes e futuros.
Assim, perguntamos:
O que a ausência de um passado singular, de um presente singular, de um “nós” singular para contar a história da escravidão ou reivindicar o passado significa para curadores encarregados de interpretar para o público a cultura material associada à escravidão transatlântica?
O projeto também pergunta como as histórias da escravidão podem ser contadas. Em meio à parcialidade e às lacunas dos arquivos coloniais, curadores são forçados a trabalhar com ausências e perdas. Por meio do diálogo crítico sobre questões de ferida, reparação, justiça e encerramento, a produção acadêmica dos Estudos Negros identificou a “ausência material não como um ponto de parada, mas sim como uma oportunidade para abordagens criativas” (Van Horn, 2024). A equipe se apoiará nesses insights e acompanhará os objetos inquietos com os quais os curadores trabalham: materiais que se deterioram ao longo do tempo; restos enterrados que são desenterrados; objetos emprestados em coleções museológicas que são devolvidos.
Os objetos musealizados, os sítios patrimoniais e até mesmo as paisagens (Glissant, 1989) disponíveis para a produção de sentido e a contação de histórias também são transformados pelo “jogo do tempo, da cultura e do poder”, gerando continuamente novos desafios curatoriais.
As vozes das comunidades mais marginalizadas pela escravidão frequentemente estão ausentes dos debates acadêmicos, profissionais e públicos sobre a prática curatorial. Com base em pesquisas recentes sobre como os museus se desenvolvem e funcionam ao lado de outras tecnologias de contenção, como prisões, asilos e zoológicos, perguntamos se novas práticas curatoriais podem ajudar a reconectar pessoas e funcionar como tecnologias de liberdade. Metodologicamente, o projeto mobilizará a aprendizagem colaborativa baseada em objetos e o cinema participativo, inclusive com comunidades marginalizadas em cada país, em direção a práticas mais equitativas de produção e compartilhamento de conhecimento.
Aprendizagem colaborativa baseada em objetos e cinema participativo, inclusive com comunidades marginalizadas em cada país, em direção a práticas mais equitativas de produção e compartilhamento de conhecimento.
Metodologicamente, o projeto mobilizará a aprendizagem colaborativa baseada em objetos e o cinema participativo, inclusive com comunidades marginalizadas em cada país, em direção a práticas mais equitativas de produção e compartilhamento de conhecimento.
Por meio dessas práticas, buscamos abordagens curatoriais que também pensem para além do objeto e se afastem das convenções tradicionais de autoridade e hierarquia curatorial.
Escravidão e seus Legados foi codesenvolvido por pesquisadores, curadores e cineastas do Sul e do Norte Global que lidam com os muitos desafios que a escravização apresenta em Gana, Brasil, Dominica e Grã-Bretanha. O projeto busca colocar seus conhecimentos/práticas emergentes em ação, uma vez que museus em três de suas localidades estarão redesenvolvendo exposições sobre escravidão durante o período do projeto. Assim, os resultados do projeto alimentarão diretamente esses processos, proporcionando uma incorporação do tipo “Processo em Prática” de nossa pesquisa em nossa prática curatorial e abrindo oportunidades para reflexão, retorno e adoção futura para além do projeto.
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Best, S. e Hartman, S. (2005) Fugitive justice. Representations, 92.
Caradonna, V. (2021). “‘All the things happening outside of the museum push me back in’: thinking through memory and belonging in Amsterdam’s Tropenmuseum.” International Journal of Heritage Studies, 28.
Connolly, B. e Fuentes, M. (2016). “‘Introduction: From Archives of Slavery to Liberated Futures?’” History of the Present, 6.
Glissant, E. (1989) Caribbean Discourse: Selected Essays, University of Virginia Press.
Hall, S. (1990) “Cultural Identity and Diaspora”, em Identity, Community, Culture, Difference.
Hartman, S. (2001) Lose Your Mother
Sharpe, C. (2016) In the wake: On blackness and being.
Trouillot, M. (1995) Silencing the Past
Van Horn, J. (2024) ‘An “Active Absence”: the Materiality of Lost Images’.