Perfil do país: Reino Unido
Grã-Bretanha

Contexto Histórico

A Grã-Bretanha desempenhou um papel central no estabelecimento e na operação do tráfico transatlântico de escravizados (estima-se que traficantes britânicos tenham transportado cerca de 3,4 milhões de africanos através do Atlântico entre 1640 e 1807). As vítimas desse tráfico e seus descendentes foram explorados nas colônias britânicas da América do Norte e do Caribe. A maioria das pessoas escravizadas foi forçada a trabalhar em plantações nas colônias britânicas, mas a mão de obra escravizada também foi explorada em outros setores e contextos, incluindo a produção de sal, a construção civil e as forças armadas (mais de 13.000 pessoas escravizadas foram adquiridas pelo Regimento das Índias Ocidentais Britânicas entre 1795 e 1808). A vasta riqueza acumulada por meio do tráfico de escravizados e da escravidão nas plantações das colônias britânicas ajudou a sustentar o desenvolvimento da Grã-Bretanha como uma economia capitalista industrial de destaque e enriqueceu, direta e indiretamente, muitos indivíduos, empresas, bancos, universidades, a Família Real e a Igreja da Inglaterra, bem como as cidades portuárias de Liverpool, Londres e Bristol.
Embora o papel dos defensores britânicos do abolicionismo na luta pelo fim da escravidão seja amplamente lembrado e celebrado na Grã-Bretanha hoje, é também importante recordar que houve uma defesa vigorosa da escravidão por parte de britânicos que se opunham à sua abolição. Além disso, quando a Lei de Abolição da Escravidão finalmente recebeu a sanção real em 28 de agosto de 1833, estimava-se que ainda havia 700.000 pessoas escravizadas nas colônias britânicas do Caribe. O governo britânico não concedeu aos ex-escravizados sequer um centavo de indenização pela exploração brutalmente violenta que eles e seus antepassados haviam sofrido; no entanto, indenizou os proprietários de escravizados pela perda de sua "propriedade" humana em um montante de cerca de 20 milhões de libras esterlinas — aproximadamente 17 bilhões de libras em valores atuais.
A escravidão transatlântica diferia de formas anteriores de escravidão não apenas em termos de escala, princípios organizacionais e integração em um sistema econômico capitalista moderno e global, mas também no que diz respeito a quem era escravizado: africanos negros. A Grã-Bretanha participou, assim, do desenvolvimento e da manutenção da escravidão racial, e a abolição legal da escravidão como regime de propriedade humana não apagou o racismo gerado por ela, o qual continua a moldar padrões de desigualdade, injustiça e violência presentes na Grã-Bretanha contemporânea. O Trabalho do Projeto na Grã-Bretanha
Atuando em três locais principais — Bristol, Liverpool e Londres —, concentram-nos nos dilemas enfrentados por curadores de museus que buscam transmitir conhecimento sobre a história da escravidão transatlântica e seus legados na atualidade. Reconhecendo que o passado da escravidão assume significados distintos no presente para diferentes grupos de pessoas, realizaremos uma série de oficinas em cada uma das três cidades, envolvendo curadores e o público — especialmente pessoas de comunidades mais afetadas pela história da escravidão e seus legados —, com o objetivo de explorar diferentes respostas a questões sobre como a história da escravidão pode ser narrada. Essas respostas serão então colocadas em diálogo com as perspectivas de participantes da pesquisa em outros países onde o projeto atua: Gana, Brasil e Dominica.
O ponto de partida para as oficinas é um conjunto de grilhões de ferro provenientes de Gana, atualmente integrante do acervo do *International Slavery Museum* (Museu Internacional da Escravidão), em Liverpool — um dos nossos parceiros do projeto no Reino Unido. Por serem um item emprestado pela nossa organização parceira em Gana (o *Ghanaian Museum and Monuments Board*), esses grilhões oferecem uma perspectiva sobre as interconexões históricas e atuais entre a Grã-Bretanha e Gana, bem como sobre os debates contemporâneos acerca da possível devolução de objetos do período imperial mantidos em museus britânicos e sobre as discussões em torno de reparações. No entanto, os grilhões também servem como porta de entrada para refletir sobre outros dilemas relacionados à forma como a história da escravidão e seus desdobramentos são narrados nos museus britânicos. Por exemplo:
Os grilhões de ferro são frequentemente vistos como objetos que sintetizam o horror da escravidão enquanto sistema de dominação, e a liberdade é, por vezes, representada pelo ato de "romper as correntes" ou livrar-se dos grilhões. Contudo, evidências históricas demonstram que a simples libertação de grilhões e outras restrições físicas — e até mesmo a própria abolição legal da escravidão — não equivaliam à liberdade plena. De que maneira esses grilhões podem ser utilizados para contar histórias mais complexas sobre liberdade, escravidão e seus desdobramentos?
Outro dilema relacionado, a ser explorado em nossos workshops, diz respeito ao fato de que as narrativas sobre a escravidão frequentemente se polarizam entre aquelas que enfatizam a violência brutal do sistema de dominação escravista (simbolizada pelos grilhões de ferro) e aquelas que destacam a resistência e a resiliência dos escravizados (representadas pelas histórias daqueles que romperam as correntes). Mais recentemente, historiadores como Vincent Brown têm defendido uma mudança de perspectiva para "encarar a escravização como uma condição complexa, na qual africanos escravizados e seus descendentes jamais deixaram de buscar uma política de pertencimento, luto, prestação de contas e regeneração". De que maneira os museus podem contribuir para promover essa mudança?
Outro dilema relacionado, a ser explorado em nossos workshops, diz respeito ao fato de que as narrativas sobre a escravidão frequentemente se polarizam entre aquelas que enfatizam a violência brutal do sistema de dominação escravista (simbolizada pelos grilhões de ferro) e aquelas que destacam a resistência e a resiliência dos escravizados (representadas pelas histórias daqueles que romperam as correntes). Mais recentemente, historiadores como Vincent Brown têm defendido uma mudança de perspectiva para "encarar a escravização como uma condição complexa, na qual africanos escravizados e seus descendentes jamais deixaram de buscar uma política de pertencimento, luto, prestação de contas e regeneração". De que maneira os museus podem contribuir para promover essa mudança?
No Reino Unido, também estamos trabalhando com cineastas da Tamo Junto Productions. Eles colaborarão com a Sun Up Sun Down Productions, de Gana, na produção de um documentário sobre os grilhões de ferro. Além disso, a Tamo Junto trabalhará com um pequeno grupo de participantes da pesquisa no Reino Unido, capacitando-os para produzir curtas-metragens que abordem as questões centrais do nosso projeto.
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Richardson, D. (2022) Principles and agents: The British slave trade and its abolition. Yale University Press.
Buckley, R. (2008) The British Army's African Recruitment Policy, 1790-1807. University of Massachusetts content
Berg, M. and Hudson, P. (2023) Slavery, capitalism and the industrial revolution. John Wiley & Sons.
See the Legacies of British Slavery project Legacies of British Slavery | Made at UCL - UCL – University College London
Hall, C. (2020) The slavery business and the making of “race” in Britain and the Caribbean. Current Anthropology, 61(S22), pp.S172-S182.
Brown, V. (2009) Social death and political life in the study of slavery. The American historical review, 114(5),
pp.1231-1249.