Ecos do Passado: Violência Policial, Escravidão e a Continuidade do Racismo no Brasil
Ecos do passado: violência policial, escravidão e as continuidades do racismo no Brasil
Em setembro de 2025, o projeto “Slavery and Its Legacies: Contestations, Memory and Change” (Escravidão e seus legados: contestações, memória e mudança) estava apenas começando quando uma equipe de curadores, acadêmicos e cineastas se reuniu para nosso primeiro encontro presencial em Niterói, Brasil. Esse encontro foi profundamente significativo e muito aguardado, pois era a primeira vez que todos os 18 integrantes da equipe se encontravam pessoalmente. Como nosso grupo está distribuído entre Gana, Brasil, Dominica, Canadá e diferentes regiões do Reino Unido, para alguns de nós era também a primeira oportunidade de nos conhecermos. Chegamos ao Rio de Janeiro para iniciar uma nova jornada colaborativa e vivenciar um encontro há muito esperado.

O Rio de Janeiro — mais especificamente, a região conhecida como Pequena África — é um dos principais locais de pesquisa do projeto. No segundo dia do nosso encontro, todo o grupo visitou a região e seus locais históricos mais importantes, relacionados ao tráfico transatlântico de pessoas escravizadas e às comunidades negras que ali se estabeleceram posteriormente. Durante a visita, fomos ao [Cais do Valongo](https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2025-09/cais-do-valongo-e-reconhecido-como-patrimonio-cultural-afro-brasileiro), o porto que recebeu o maior número de africanos escravizados nas Américas. Também visitamos o [Armazém Docas Dom Pedro II](https://pretosnovos.com.br/2021/07/24/armazem-docas-dom-pedro-ii/), projetado pelo primeiro engenheiro negro do Brasil, André Rebouças, cujo nome foi posteriormente atribuído ao edifício. De maneira notável, foi a única estrutura construída durante o período da escravidão que não utilizou mão de obra escravizada — uma condição inegociável imposta pelo próprio André Rebouças.

Após o almoço, continuamos nossa caminhada pela cidade. Passando pela estação Central do Brasil, pegamos o teleférico que atravessa o [Morro da Providência](https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/rio-450-anos/noticia/2015/01/conheca-historia-da-1-favela-do-rio-criada-ha-quase-120-anos.html), amplamente reconhecido como a primeira favela do Brasil. A comunidade surgiu depois que moradores negros foram expulsos dos cortiços pelo Estado, em decorrência de políticas urbanas de “higienização”.

Expulsos de suas moradias, eles subiram o morro e começaram a se estabelecer ali a partir de 1897. Nosso destino era o [Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira](https://www.rio.rj.gov.br/web/muhcab) (MUHCAB), instituição dedicada à preservação da história, da memória, da resistência e do desenvolvimento cultural das comunidades afro-brasileiras na região da Pequena África. Mas nunca chegamos ao destino.
Naquele momento, ainda não sabíamos que o governo do estado do Rio de Janeiro havia iniciado uma grande operação policial contra o grupo criminoso organizado Comando Vermelho em duas favelas da Zona Norte da cidade — o Complexo do Alemão e a Penha. À medida que o número de mortos aumentava, a tensão se espalhava pela cidade, a ponto de estabelecimentos comerciais e instituições culturais, incluindo o MUHCAB, fecharem suas portas. Quando chegamos ao museu naquela tarde, ele já estava fechado à visitação, e fomos aconselhados a não permanecer nas ruas.
Em meio ao medo crescente e à falta de informações, nossos parceiros locais nos levaram à sede do IPN — Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, que preserva o que é considerado o maior cemitério de africanos escravizados das Américas. Ali, a portas fechadas, ouvimos nossos parceiros falarem sobre a violência e os mortos do passado enquanto aguardávamos notícias sobre a violência e os mortos do presente.
Naquele dia trágico, 28 de outubro de 2025, a vida de 122 pessoas foi interrompida — 118 supostos suspeitos e quatro policiais. A violência não apenas interrompeu nossa programação; ela nos afetou profundamente, tanto no âmbito pessoal quanto profissional. Éramos curadores, acadêmicos e cineastas que pesquisam e trabalham com narrativas relacionadas não apenas ao passado violento do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, mas também aos seus legados e às suas continuidades na sociedade contemporânea.
Quando finalmente retornamos ao hotel, depois que a tensão nas ruas diminuiu um pouco, em meio ao temor de retaliações por parte do grupo criminoso, fomos confrontados com notícias devastadoras e imagens horripilantes de corpos sendo carregados pelos próprios moradores. O Estado chegou, realizou um massacre e deixou a comunidade encarregada de recolher seus próprios mortos.

Fabrício Sousa / Estadão - Conteúdo
Violência de Estado e necropolítica
Infelizmente, essa realidade não é incomum no Brasil. Um relatório da Anistia Internacional, publicado em 2015, já identificava a polícia brasileira como a força policial mais letal do mundo. Desde então, o número de mortes provocadas por operações policiais quase triplicou, chegando a 6.393 vítimas em 2023 e 6.519 em 2025. Apesar desses números alarmantes, muito pouco foi feito para mudar essa realidade. Pelo contrário, interesses políticos continuam sustentando políticas de segurança baseadas no confronto. A atuação policial brasileira permanece marcada pelo uso de armamentos pesados e por baixos níveis de responsabilização diante de abusos.
Em seu livro *A História da Polícia no Brasil: Estado de Exceção Permanente?*, Almir Felitte (2023) argumenta que a história do policiamento no Brasil esteve mais estreitamente ligada ao controle das populações negras livres do que ao policiamento das próprias pessoas escravizadas. Felitte descreve como o controle antes exercido de forma privada pelos senhores de escravizados durante o século XIX foi transferido ao Estado após a abolição, tornando as instituições policiais centrais para a criminalização da pobreza e das populações negras. Portanto, não é coincidência que as favelas continuem sendo os principais alvos das operações militares mais violentas do país.
O perfil das vítimas permanece constante: predominantemente jovens negros de bairros periféricos e favelas. Dados do relatório *Pele Alvo: Crônicas de Dor e Luta*, produzido pela Rede de Observatórios da Segurança, revelam que 86,2% das pessoas mortas pela polícia eram negras. Essa seletividade — combinada à ausência de políticas públicas efetivas voltadas à redução desses números — demonstra que a letalidade policial continua funcionando, desde a própria formação das instituições policiais, como um mecanismo de controle dos corpos negros.
Uma análise da decisão judicial que autorizou a operação de 28 de outubro no Alemão e na Penha revelou que nenhum dos 118 indivíduos mortos constava na lista de suspeitos com mandados de prisão preventiva. Ainda assim, o governador do Rio de Janeiro descreveu publicamente a megaoperação como um sucesso, afirmando que os policiais mortos eram as únicas vítimas.
A declaração do governador Cláudio Castro revelou um profundo desprezo e um processo de desumanização das vidas negras nas favelas brasileiras. Como governador eleito democraticamente, ele não pediu a abertura de uma investigação nem demonstrou preocupação com as famílias e comunidades afetadas — apesar de aproximadamente 33% da população do Rio de Janeiro viver atualmente em favelas. A chamada “guerra às drogas” e as forças policiais que, teoricamente, deveriam proteger os cidadãos acabam se tornando instrumentos de desumanização em sua forma mais brutal.
Continuidades
A dimensão da violência afetou profundamente nosso grupo. Decidimos dedicar o dia seguinte à reflexão, para processar nossas emoções, nossa indignação e até mesmo nossa incredulidade diante do que havíamos testemunhado. Embora sejamos um grupo internacional de profissionais que estudam os horrores do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, certamente não estávamos preparados para esse tipo de violência, tampouco para o quanto ela se tornou normalizada e para a rapidez com que a vida segue como se nada tivesse acontecido.
Após a declaração do governador, houve muito pouca pressão pública ou política para que fosse realizada uma investigação adequada ou para que mudanças significativas nas práticas policiais fossem implementadas.
A violência continua de maneira extremamente normalizada, assim como a escravidão e o sofrimento negro foram naturalizados durante a formação deste país. Muitas vezes, temos a sensação de que muito pouco mudou. Como argumenta Ynaê Santos (2022) em seu livro *Racismo Brasileiro: Uma História da Formação do País*, a história do Brasil é marcada muito mais por continuidades do que por rupturas ou transformações.